Adeus, SOP; Olá, SOMP: Entenda o novo diagnóstico que vai transformar a saúde feminina

Marcos Leite, 18 de maio de 2026

No Espaço Binah, trabalhamos com um compromisso claro: acompanhar a evolução do conhecimento científico para oferecer cuidado clínico preciso, humano e responsável. Foi com esse olhar que recebemos a recente mudança do termo “SOP” (Síndrome dos Ovários Policísticos) para Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP), uma alteração que não é apenas semântica, mas conceitual, histórica e política. Como demonstrado no artigo publicado em 13 de maio deste ano, na conceituada revista científica The Lancet, essa mudança nasce da necessidade urgente de corrigir equívocos acumulados ao longo de décadas e alinhar a nomenclatura ao que a ciência já sabe.

Durante muito tempo, imaginou-se que o coração da síndrome residia em “cistos” ovarianos. Porém, a ciência foi desmontando esse equívoco: aquilo que aparecia nas ultrassonografias não eram cistos, mas folículos aumentados, estruturas naturais do ciclo ovariano. Essa confusão linguística gerou medo, estigma, diagnósticos tardios e uma visão estreita que reduzia a condição a uma imagem estática, quando, na verdade, ela é um processo dinâmico e sistêmico.

A SOMP desloca esse foco. Ela nomeia o que realmente está em jogo: um distúrbio hormonal e metabólico que envolve múltiplas glândulas, ovários, adrenal, tireoide, pâncreas, hipófise, integradas em um circuito que organiza funções corporais essenciais. Uma ruptura nesse circuito pode gerar resistência à insulina, excesso de andrógenos, alterações ovulatórias, inflamação crônica de baixo grau e maior risco cardiometabólico.

Ao incluir o termo “poliendócrina”, a nova denominação reconhece que a síndrome não pertence a uma glândula isolada, mas a um sistema que conversa o tempo todo. “Metabólica” reforça que o metabolismo, e não a presença de “cistos”, é o palco onde a síndrome se manifesta e se mantém. E “ovariana” preserva a parte da experiência que atravessa a saúde reprodutiva, garantindo clareza clínica e comunicacional.

Essa mudança não nasceu do acaso. Ela é fruto de um processo global, rigoroso e sem precedentes, conduzido por grupos de mulheres, pesquisadoras, profissionais de saúde de diversas áreas, organizações científicas e especialistas em implementação. Foram utilizadas metodologias robustas — Delphi modificado, grupos focais, workshops com especialistas, análises de comunicação e estratégias de implementação — garantindo representatividade, legitimidade e transparência em um tema que toca mais de 170 milhões de mulheres no mundo.

Os motivos da mudança são contundentes:

  • o nome antigo era inadequado, impreciso e enganoso,
  • reforçava uma associação equivocada a cistos,
  • atrasava diagnósticos,
  • alimentava estigmas,
  • prejudicava pesquisa, políticas públicas e educação médica.

A SOMP, por outro lado, revela a condição como ela é: complexa, sistêmica, hormonal, metabólica, poliglandular.

O que a ciência sabe hoje sobre a SOMP

As pesquisas mais recentes mostram que a SOMP:

  • tem origem poligênica, envolvendo vias neuroendócrinas, metabólicas e reprodutivas;
  • apresenta hiperandrogenismo como uma marca endócrina central, com excesso de andrógenos produzidos pelos ovários e pelas adrenais;
  • envolve alterações neuroendócrinas, como maior pulsatilidade de GnRH e níveis elevados de LH;
  • quase sempre inclui resistência à insulina e hiperinsulinemia que amplificam o hiperandrogenismo;
  • se manifesta em alterações metabólicas amplas: distúrbios glicêmicos, esteatose hepática, hipertensão, dislipidemia, risco cardiovascular aumentado;
  • apresenta alterações na foliculogênese, com muitos folículos pequenos e AMH elevado;
  • gera impactos emocionais, dermatológicos e reprodutivos.

Esses elementos são inseparáveis: hormonais, metabólicos e reprodutivos se cruzam. É por isso que a SOMP exige um olhar que não isole partes do corpo, mas compreenda o organismo como uma ecologia viva onde cada sistema regula e é regulado pelos outros.

Termos muitas vezes percebidos como técnicos podem ser entendidos assim:

  • Hiperandrogenismo: quando hormônios como a testosterona circulam em níveis mais altos que o habitual, provocando acne, pele oleosa, queda de cabelo, aumento de pelos e impacto na ovulação.
  • Resistência à insulina: quando as células não respondem bem à insulina, exigindo que o corpo produza mais, um ciclo que desgasta o metabolismo e influencia hormônios.
  • Disfunção ovulatória: resultado de um diálogo hormonal desregulado, e não de um “erro dos ovários”.

Esses mecanismos se alimentam entre si, criando ciclos de repetição que explicam a persistência e amplitude dos sintomas.

O processo de implementação global da nova nomenclatura

A mudança de nome agora segue um plano internacional em oito etapas:

  1. Publicação científica e divulgação acadêmica.
  2. Desenvolvimento de materiais educativos multilíngues.
  3. Comunicação global coordenada.
  4. Integração nos sistemas de saúde e prontuários.
  5. Alinhamento de políticas públicas, pesquisa e financiamento.
  6. Adoção formal em classificações internacionais (incluindo CID).
  7. Transição global de 3 anos, com avaliação contínua.
  8. Integração nas diretrizes internacionais em 2028.

Esse processo garante que o novo nome seja adotado com coerência e cuidado, evitando confusões e ampliando o impacto positivo da mudança.

Por que isso importa para você e para nós, no Espaço Binah

O nome que damos às coisas importa. Ele molda como as vemos, como as tratamos e como as sentimos.
Quando o nome é impreciso, o cuidado se perde.

Com a SOMP:

  • o diagnóstico ganha precisão,
  • o tratamento ganha profundidade,
  • o cuidado torna-se mais integral,
  • as mulheres ganham clareza sobre o próprio corpo,
  • e a medicina avança para longe do estigma e perto da complexidade real da experiência humana.

No Espaço Binah, acreditamos que cuidar da saúde é também cuidar da narrativa que cada pessoa carrega — desmontando equívocos, reconstruindo sentidos e devolvendo autonomia.

Referência

TEED, H. J. et al. Polyendocrine metabolic ovarian syndrome, the new name for polycystic ovary syndrome: a multistep global consensus process. The Lancet, v. 397, n. 10298, p. 1–10, 12 maio 2026.